Abrahão Saliture/1911-1913

06/08/2011

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* Localização

Careta, ano 4, número 178, 28 de outubro de 1911 (foto maior)

Careta, ano 6, número 253, 5 de abril de 1913 (foto do canto superior direito)

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* Descrição

– Foto maior – Abrahão Saliture, remando pelo Club de Natação de Regatas, vencedor do Campeonato Brasileiro de Remo de 1911. Foto na Baía de Guanabara, na raia do Pavilhão de Regatas.

 – Foto do canto superior direito – Saliture na Enseada de Botafogo, depois de ter disputado prova de natação em Festival de Concursos Náuticos.

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* Comentário

As fotos não estão muito claras, mas o personagem é fascinante. Trata-se de Abrahão Saliture, um dos mitos dos primórdios dos esportes náuticos e aquáticos no país. Nadador, remador e jogador de pólo aquático, começou a fazer esportes para minimizar um defeito de infância no braço. Foi vencedor do 1º Campeonato Brasileiro de Natação, realizado em 1897, ganhou muitas outras provas, das 3 modalidades, no Rio e no País e tornou-se o primeiro brasileiro a vencer provas no exterior, no Uruguai e na Argentina. Teve uma carreira longeva. Com 37 anos participou da equipe brasileira nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, feito repetido nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, quando já tinha 49 anos.

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Casa Sportman/1912-1913

30/07/2011

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* Localização

Careta, ano 5, número 225, 21 de setembro de 1912 (foto da esquerda)

Careta, ano 6, número 248, 1 de março de 1913 (imagem da direita)

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* Descrição

– Foto da esquerda – Imagem da fachada da Casa Sportman, que se localizava na Rua dos Ourives, 25/27. No alto da fachada, logo abaixo do nome da loja, vemos uma informação sobre os produtos vendidos: calçados finos e artigos para sport.

– Foto da direita – Propaganda da loja oferecendo produtos para a prática do futebol, recebidos de Londres: camisas, bolas, chuteiras, gorros, apitos, bombas etc. Percebe-se que a loja tinha uma filial (provavelmente a matriz) na Avenida Rio Branco, 52. Destaca-se a bela gravura do jogador, com a bola em primeiro plano.

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* Comentário

A gestação de um mercado é uma das marcas da conformação do campo esportivo. No caso brasileiro, desde o século XIX havia lojas que se dedicavam a vender produtos para a prática das modalidades, embora não exclusivamente dedicadas a tal.

No caso do turfe e do remo, os produtos eram vendidos em lojas dedicadas à agropecuária ou atividades náuticas em geral. Lojas de roupas passaram a oferecer, entre outras coisas, vestimentas adequadas às novas práticas. Deve-se considerar que não era elevado o número de praticantes, embora já o fosse o número de assistentes.

Nesse sentido, o futebol tem grandes contribuições para o desenvolvimento desse nicho específico de mercado (a venda de produtos esportivos). Como se tornou rapidamente popular, cresceu o número de lojas que ofereciam equipamentos para sua prática. Com isso, essas mercadorias paulatinamente também se tornaram mais acessíveis, o que contribuiu para a substituição de materiais improvisados. Logo, a configuração do mercado também contribuiu para a popularização do futebol.

O caso da Casa Sportman, fundada em 1905, é um belo indício desse processo nos anos iniciais do século XX. A loja vinculava-se à prática esportiva já no nome, um indicador não só de que vendia produtos para a prática de modalidades, mas sim de que vendia produtos considerados adequados a um novo estilo de vida (mais sportivo).

Os produtos esportivos oferecidos eram importados, também um sinal de distinção, mas fundamentalmente devido ao fato de que a precária indústria brasileira ainda não produzia habitualmente o material. Destaca-se ainda que a empresa possuía uma loja na prestigiosa Avenida Rio Branco, onde se localizava o comércio mais fashionable da ocasião.

A Casa Sportman participou ativamente do desenvolvimento do esporte na cidade. Por exemplo, por lá, em 1916, eram vendidas as Regras Officiaes de todos os Sports, livro majoritariamente dedicado ao futebol, no qual podemos ler na apresentação:

“(…) A Casa Sportman já tão conhecida de todos os amadores do sport, e sendo cada vez mais admirada por todos os sportmen, pela certeza de tê-los bem servido em tantos quantos artigos tem importado da Inglaterra, França e América do Norte, aproveita a oportunidade para ofertar-lhes em agradecimento à preferência que lhe tem dispensado os amigos e tributários dos clubes de sport, as várias regras contidas neste folheto (…)” (apud Toledo, 2000).

Por lá também se vendiam ingressos para jogos de futebol, como, por exemplo, para a inauguração do Estádio de São Januário, em 1927. Para registro, esses eram os preços das entradas: Camarotes – 60$000; Cadeiras de Pista A – 12$000; Cadeiras de Pista – 10$000; Arquibancadas – 5$000; Gerais – 3$000.

Por lá também se pôde votar no concurso que a Companhia de Cigarros Veado fez, em 1930, para escolher o melhor jogador do Brasil, vencido por Russinho, do Vasco da Gama, apoiado enfaticamente pelos portugueses (ver aqui post de João Malaia sobre o assunto).

A Casa Sportman, assim, marcou seu nome na história esportiva da cidade.

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Corrida de automóveis/1908

23/07/2011

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* Localização

Careta, ano 1, número 9, 1 de agosto de 1908

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* Descrição

4 fotos da primeira prova automobilística disputada no Brasil, o Circuito de Itapecerica, em São Paulo. Foto do vencedor Silvio Penteado e aspectos do percurso. A legenda informa o percurso pela cidade.

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* Comentário

Encarado como substituto e superação da natureza (de cavalos e da força humana), o automóvel é uma marca da chamada Segunda Revolução Industrial e um dos símbolos mais importantes do século XX. O automobilismo, em grande medida, é entendido como o exponencial dessa representação simbólica.

É largamente aceito que o primeiro automóvel tenha chegado ao Brasil pelas mãos de Alberto Santos Dumont, um dos precursores da aviação, desde muito jovem interessado pelas “fascinantes máquinas modernas”.

Em 1891, Dumont desembarca no Porto de Santos com seu Peugeot, com motor de dois cilindros da marca Daimler. Logo transferido para a cidade de São Paulo, pode-se imaginar a surpresa da população ao ver aquela máquina barulhenta se deslocando pelas ruas sem a necessidade de cavalos para a tração.

Foram como grandes aventuras que foram vivenciados os primeiros momentos do automobilismo brasileiro. Por exemplo, em 1908 um evento de grande impacto marca a história da modalidade no país: a pioneira aventura automobilística em solos brasileiros. O fato é bastante simbólico: um francês (o Conde Lesdain), já conhecido como desbravador por seus feitos na Ásia e na África, auxiliado por três outros franceses (Henri Trotet, Gaston Conte e Albert Vivès), faz o percurso Rio de Janeiro-São Paulo, justamente as duas cidades mais envolvidas com o automóvel, percorrendo 700 quilômetros em aproximadamente 35 dias; para tal, fez uso de um Brasier.

A ideia de organização de uma corrida de automóveis mais estruturada parece ter sido lançada por uma importante figura da política nacional, Washington Luís, à época um dos secretários do governo de São Paulo. Ao passear com seu carro pelos arredores da cidade, descobriu um percurso que lhe pareceu adequado para uma prova e apresentou a possibilidade para um grupo de membros das elites paulistanas, os mesmos que logo fundaram o Automóvel Clube de São Paulo: estava lançada a ideia do Circuito de Itapecerica.

A comissão organizadora da prova assim estabeleceu as regras para o Circuito: prova no estilo rally, cinco categorias (divididas pela potência dos veículos); taxa de inscrição de 100 mil réis para carros e 50 mil para motos; a proibição de participação de “profissionais” (assalariados, como mecânicos, não podiam participar).

A corrida foi inicialmente marcada para 14 de julho de 1908, com o intuito de homenagear a França; entretanto, um pedido de Miguel Calmon, Ministro dos Negócios da Indústria, Viação e Obras Públicas, intermediado por Aarão Reis, presidente do Automóvel Clube do Brasil, levou à transferência da data.

Em 26 de julho, com três motos e 16 carros inscritos, foi dada a largada do Circuito de Itapecerica, reconhecida largamente como a primeira prova “oficial” do automobilismo brasileiro.

Os competidores deveriam ir à cidade de Itapecerica da Serra e voltar a São Paulo, cumprindo aproximadamente 75 quilômetros. A largada e chegada, local onde se aglomerou grande público, foi realizada no Parque Antártica, espaço que desde o início do século abrigava um complexo de entretenimentos.

Entre os carros, 11 eram de origem francesa (das marcas Delage, Peugeot, Sizaire-Naudin, Renault, Berliet, Clément-Bayard, Lorraine-Dietrich, Herald, Brasier), três eram italianos (Fiat), um era inglês (Brow) e um alemão (Nag). Todos usavam pneus Pirelli. As três motos eram da francesa Griffon. Participaram como pilotos membros das elites paulistas, como Antônio Prado Júnior, alguns cariocas, como Gastão de Almeida, e estrangeiros, como o francês Jordano Laport.

O grande favorito da prova era o já conhecido, por sua façanha de fazer a travessia Rio de Janeiro-São Paulo, Conde Lesdain. Ele, contudo, quando se preparava para a prova, quebrou seu automóvel, algo que se repetiu no dia da competição. O carro mais potente era o Lorraine-Dietrich de 60 HP de Jorge Haentjens, que disputou sozinho em sua categoria.

A grande disputa se deu mesmo entre um carioca e um paulista: Gastão de Almeida, já conhecido por suas aventuras automobilísticas, quebrou o carro próximo à chegada, quando tinha grande vantagem sobre o segundo competidor, Sylvio Álvares Penteado, que acabou por vencer pilotando um Fiat, para delírio do grande número de imigrantes italianos que acompanhava o evento.

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Corridas no Jockey-Club/Grande Prêmio Cruzeiro do Sul/1908

16/07/2011

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* Localização

Careta, ano 1, número 3, 20 de junho de 1908

* Descrição

Corridas no Jockey Club/ Grande Prêmio Cruzeiro do Sul

* Comentário

O turfe foi o primeiro esporte a se organizar na cidade do Rio de Janeiro; o pioneiro clube foi fundado já em 1849, o Club de Corridas. Depois de um período de dificuldades, no quartel final do século XIX a modalidade se tornou muito popular, sendo, contudo, substituída na preferência popular, no final da década de 1890, pelo remo. Novos tempos apontavam para uma nova prática valorizada, e o turfe lembrava o rural, a aristocracia, costumes julgados antigos por um setor da cidade que aspirava progresso e modernidade.

Ainda assim, e até os dias de hoje, o turfe segue ocupando lugar destaque para um setor das elites, graças a sua capacidade de instituir mecanismos de status e distinção.

Nas imagens acima vemos um dia de páreos no hipódromo do Jockey Club, que se localizava no Bairro de São Francisco Xavier, no mesmo local onde fora fundado o pioneiro Club de Corridas. Podemos perceber que o público é mais representado do que aspectos da competição em si: apenas um conjunto (cavalo e jóquei) é exibido. Essa opção deve-se a duas razões: a) técnicas – as câmeras ainda não conseguiam captar determinados aspectos dada a velocidade da prova; b) simbólicas – exibir os assistentes e as figuras mais importantes da sociedade era o mais valorizado. Nas fotos acima vemos até mesmo a chegada do Presidente da República, Afonso Pena, e do Ministro da Indústria, Viação e Obras, Miguel Calmon, algo que se tornou comum não só na história das corridas de cavalos como dos esportes em geral.

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Regatas em Botafogo/1908

09/07/2011

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* Localização

Careta, ano 1, número 2, 13 de junho de 1908

* Descrição

Aspectos da enseada de Botafogo, do Pavilhão de Regatas e da Avenida Beira-Mar

* Comentário

No quartel final do século XIX, conforme ia se configurando como uma prática cada vez mais popular, paulatinamente o esporte foi ocupando espaço nos jornais e revistas. No decorrer da história, imprensa e prática esportiva estabeleceram relações de amor e ódio. De um lado, os periódicos eram fundamentais para atrair público e explicar as peculiaridades da “novidade”; de outro, também apontavam os problemas e interferiam demais na dinâmica da atividade. De qualquer forma, até os dias de hoje trata-se de um relacionamento praticamente indissolúvel.

No caso da Careta, uma revista que marcaria sua época, as primeiras imagens de esporte aparecem já no segundo número, lançado em 13 de junho de 1908. O formato adotado seria muito comum no decorrer da história: pouco texto e um mosaico de imagens.

Nas imagens acima, lamentavelmente de qualidade não muito boa, vemos flagrantes de regatas realizadas na Praia de Botafogo em 1908. Vemos algumas fotos dos barcos em competição, mas a maior parte é mesmo dedicada a retratar o publico no Pavilhão de Regatas, construído na administração Pereira Passos e inaugurado em 1906.

Na ocasião, o remo transformara-se em um dos mais fashionables divertimentos da cidade; as regatas eram marcadas por intenso frenêsi, não só nas arquibancadas do Pavilhão, que recebia o público de elite, como na Avenida Beira-Mar, que era ocupada por populares dispostos a acompanhar as emocionantes disputas.

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Clube de Regatas Vasco da Gama/1922

01/07/2011

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* Localização

Careta, ano 15, número 709, 21 de janeiro de 1922

* Descrição

Clube de Regatas Vasco da Gama

* Comentário

Na virada dos séculos XIX-XX, novos heróis se apresentaram em uma cidade que se pretendia moderna. Não mais se tratavam de indivíduos frágeis, doentes, que trajavam roupas em excesso e cultivam apenas uma cultura literária. Novos modelos corporais, exibidos com orgulho, algo favorecido por vestimentas que deixavam entrever a nova compleição muscular, traziam a mensagem de um novo tempo e de novas posturas: a valorização da saúde, do ativismo, de uma certa ousadia.

O remo se apresentava como o esporte ideal para celebrar o novo Rio de Janeiro e ajudava a conformar uma forte relação entre uma identidade carioca e os usos divertidos do mar.

A belíssima foto acima, tirada provavelmente na Baía de Guanabara, exibe barcos do Clube de Regatas Vasco da Gama em meio a uma prova náutica, festival ou treino. Destaca-se o contraste entre as guarnições na horizontal, os remos na vertical e os remadores como dobradiças, tudo compondo um quadro de integração com a natureza, que remete à ideia de harmonia e ordem, noções tão mobilizadas por essa modalidade que fora rapidamente adotada pela burguesia urbana carioca.

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